Sequelas pós-COVID: sobreviventes sofrem de depressão e ansiedade

Perda de olfato, fadiga, depressão e ansiedade: saiba mais sobre as sequelas pós COVID que podem acometer pacientes curados.

A COVID-19 é uma doença contagiosa que já levou a óbito mais de 4 milhões e meio de pessoas ao redor do mundo. Ela é especialmente perigosa para pessoas idosas  e portadoras de comorbidades. E, embora as campanhas de vacinação estejam evoluindo em diversos países, há um outro lado da pandemia que não pode ser ignorado: mesmo quem é infectado pela doença e sobrevive, ainda pr ecisa lidar com as sequelas pós-COVID.

Desde os primeiros casos, ficou claro que a doença pode causar diversos tipos de sequelas. A maioria delas é temporária, mas nem por isso deixam de exigir atenção e cuidados especiais. Há sequelas físicas, como perda do olfato, problemas intestinais ou fadiga, mas também podem ocorrer sequelas psicológicas, neurológicas e psiquiátricas, como ansiedade, depressão e outros problemas.

Sequelas psiquiátricas descritas 

Estudos conduzidos em pacientes que se recuperaram da COVID-19, após a alta hospitalar, identificaram casos, em diferentes graus de intensidade, de sequelas psiquiátricas como depressão, ansiedade, insônia, alterações de humor, chegando até mesmo a casos de perda de memória, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Por meio desses estudos, pesquisadores identificaram diversos níveis de gravidade e alguns padrões que podem indicar possível tendência ao desenvolvimento dessas sequelas pós covid. Foi identificado, por exemplo, que pessoas jovens têm maior tendência a sofrerem sintomas de ansiedade e depressão. Também identificou-se que mulheres com histórico psiquiátrico estão ainda mais propensas a desenvolverem sintomas.

A quantidade de casos que foram acometidos por alguma alteração neurológica também foi levada em conta: em termos gerais, mais da metade dos pacientes estudados acabaram desenvolvendo algum nível de alteração psiquiátrica. O mais preocupante, é o acúmulo de sequelas: até 10% dos pacientes desenvolveram quatro ou mais psicopatologias diagnosticadas depois que já estavam livres do coronavírus.

Também houve registros – em uma parcela muito pequena dos pacientes avaliados – de tendências suicidas resultantes do acúmulo de duas ou mais psicopatologias decorrentes da COVID-19. Vários foram os estudos conduzidos ao redor do mundo para entender os possíveis danos psicológicos que o vírus Sars-CoV-2 pode causar, direta ou indiretamente.

Causas das sequelas psiquiátricas 

Mas por que o COVID-19 causa esses sintomas neurológicos em uma considerável quantidade de pacientes? Identificar as causas deste problema tornou-se de grande importância não só para os cuidados em relação à doença, mas também pela saúde mental da população em geral.

Entre as prováveis causas do desenvolvimento de alguma condição neurológica ou psiquiátrica, estão as transformações impostas nas condições de vida das pessoas por conta da pandemia: isolamento social, medo de morrer caso seja infectado, medo de levar o vírus para casa e contaminar familiares, etc. Em pacientes mais jovens, os distúrbios causados pelo isolamento social durante o período de internação foi um agravante para o desenvolvimento de alguma sequela neurológica.

Como cansamos de ver nos telejornais, em muitos casos graves de infecção, os pacientes precisam ficar completamente isolados, sem qualquer contato humano, longe de familiares e amigos e muitas vezes até mesmo sem acesso ao celular ou à internet. Isso, aliado ao receio de morte, de infecção hospitalar ou agravamento da doença, é mais um fator capaz de deixar um paciente mais suscetível a desenvolver sintomas de ansiedade e depressão.

Os estragos que o coronavírus causa no aparelho respiratório já são bem conhecidos. Porém, ainda não se sabe com clareza até que ponto ele pode afetar o cérebro. Já houve casos clinicamente comprovados do vírus afetando o plexo coroide, uma estrutura do sistema nervoso central e causando algum nível de inflamação no sistema nervoso de pacientes infectados. Isso pode ter ocorrido em decorrência da resposta imune do corpo para o combate ao vírus. Há mais estudos sendo realizados para  compreender melhor  essa característica neuro-inflamatória do vírus e as possíveis causas desse fenômeno.

O mesmo estudo comprovou que, quanto maior a inflamação no sistema nervoso, mais fortes são os sintomas neurológicos desenvolvidos, mesmo em pacientes sem histórico prévio de depressão ou ansiedade. Logo, pacientes que já possuíam histórico de distúrbios mentais, têm chances ainda maiores de sofrerem com o agravamento dessas condições.

O impacto da COVID-19 na saúde mental: dados do Brasil e do mundo  

Os estudos que foram citados sobre as sequelas pós COVID-19 na saúde mental de pacientes foram desenvolvidos em várias partes do mundo. Um dos principais foi conduzido no Hospital San Raffaele em Milão, Itália.

Esse hospital foi o responsável pelo estudo da correlação entre a infecção da COVID-19 e sintomas depressivos e de ansiedade, partindo da identificação da inflamação do sistema nervoso, em especial nas células cerebrais. O estudo foi conduzido em 402 pacientes adultos, sendo desses 265 homens.

O estudo mostrou que 55,7% do grupo desenvolveu ao menos uma psicopatologia. 36% desenvolveu duas dimensões de psicopatologia. 26% desenvolveu três dimensões e por fim, 10% desenvolveu quatro. Também foram identificadas tendências suicidas em 2,9% dos pacientes acompanhados.

Aqui no Brasil, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em parceria com o Hospital das Clínicas da instituição, trabalhou em um estudo para a identificação de possíveis sequelas deixadas pela infecção do coronavírus, e teve sucesso em identificar alguns padrões sobre casos de ansiedade e depressão.

O estudo mineiro identificou a relação direta entre o tempo e as condições de internação com o desenvolvimento de ansiedade de depressão. Como já mencionado, o isolamento social causado pela pandemia, agravado por internações hospitalares bastante restritivas, acabaram agravando o surgimento dessas sequelas.

Já em pacientes submetidos ao Centro de Tratamento Intensivo (CTI), com necessidade de intubação e ventilação mecânica – casos em que os pacientes não ficam conscientes durante a internação – os sintomas psicológicos mais comuns envolvem uma lacuna na memória – por conta do período comatoso. Isso faz com que os pacientes tenham dificuldades em lidar com a quantidade de tempo que se passou enquanto estavam internados.

No Brasil há cerca de 17 milhões de pessoas que contraíram e foram curadas da covid-19. E desses, 80% desenvolveram sequelas pós-covid de tipos variados, sendo os casos de depressão e ansiedade apenas duas das possíveis sequelas que foram registradas.

É importante mencionar que apesar do número de pacientes curados ser grande, o número de mortos pela doença infelizmente também é: o avanço do Plano Nacional de Imunização tem diminuído consideravelmente o número de óbitos, mas, mesmo assim o país já soma mais de 580 mil vítimas fatais da doença.

Outras sequelas pós-COVID 

O tempo de infecção da COVID-10 geralmente fica em torno de 14 dias, mas, após  esse período, são grandes as chances da pessoa desenvolver sequelas que podem permanecer por mais ou menos tempo. As possíveis sequelas são muitas, o que torna difícil identificar com precisão todas elas.

A sequela mais comum decorrente de uma infecção pelo Sars-CoV-2 é a que acomete o sistema respiratório de um paciente. O comprometimento dos pulmões pode causar dificuldade na respiração e falta de ar. Em casos severos, tratamentos são necessários para restabelecer a capacidade pulmonar – mas fica o risco de um possível desenvolvimento de fibrose pulmonar (tecido cicatricial nos pulmões) ou alguma outra doença respiratória.

Outras sequelas pós COVID relativamente comuns são dores de cabeça, que podem surgir associadas a náuseas, tontura e sensibilidade à luz. Isso ocorre por razões similares ao surgimento de sintomas psicológicos: o sistema nervoso do paciente encontra-se fragilizado. Casos mais raros também envolvem dificuldades cognitivas, falta de concentração, perda de memória, entre outros.

Algo que muitos pacientes curados relatam é a perda do olfato e do paladar – condição que acometeu cerca de 86% dos pacientes que desenvolveram um caso leve da doença. Outro sequela comum foi a parosmia, condição que “confunde” o olfato e o paladar de uma pessoa, fazendo com que ela não consiga sentir cheiros e gostos de forma correta. Isso faz com que, por exemplo, a comida tenha um gosto ruim ou totalmente diferente do que deveria. Há ainda pacientes relatando que sentem cheiros e gostos quando não deveriam, principalmente gosto amargo na boca.

Fadiga também é uma condição adversa que afetou muitos pacientes – e pode ter diversas razões, como o descondicionamento físico causado pela falta de mobilidade, que resultou em maior fraqueza muscular. Perda de peso, falta de ar e inflamações musculares também são possíveis causas dessa sequela.

Uma das possíveis sequelas pós-covid que ainda está sendo estudada é a chamada “tempestade inflamatória”, ou “tempestade de citocinas”. Quando o sistema imunológico identifica um perigo, ele avisa o corpo para que anticorpos e outras células possam atuar no combate ao invasor. Uma dessas formas de defesa é a produção de citocinas, moléculas responsáveis por ajudar no combate a vírus e bactérias “recrutando” células imunológicas e sendo responsáveis tanto por causar quanto frear inflamações.

A inflamação é uma das armas que o nosso organismo usa no combate a doenças e invasores. Porém, o normal é que as inflamações terminem quando tudo estiver seguro. Esse balanceamento do quadro inflamatório é controlado pelas citocinas. Em alguns pacientes infectados pela COVID-19,  é possível que o corpo tenha gerado uma resposta inflamatória muito intensa, não sendo capaz de controlá-la, o que gera a chamada tempestade inflamatória.

Como já mencionado, há outras possíveis sequelas que podem ter relação com uma infecção por coronavírus. Os estudos sobre as sequelas pós-covid ainda seguem, tanto para identificar todas as possíveis sequelas, como, principalmente, para entender melhor os problemas psicológicos que podem decorrer da doença. 

Por hora, a recomendação é que qualquer paciente tenha acompanhamento médico – e, se preciso, psicológico ou psiquiátrico – durante e após o período de infecção, a fim de identificar e tratar quaisquer problemas posteriores à doença.

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