Qual a diferença entre endemia, epidemia e pandemia?

Em março de 2022, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a COVID-19 como uma pandemia, muita gente se perguntou: Mas o que isso quer dizer? E qual é a diferença entre endemia, epidemia, pandemia e surto?

A resposta, basicamente, tem relação com a escala e a frequência com a qual uma doença está contaminando as pessoas. É por isso que muitos países estão decidindo tratar o coronavírus como uma endemia. 

Mas o que isso significa? A COVID-19 está chegando ao fim? Acalme-se, pois neste artigo explicamos tudo! Entenda as diferenças entre endemia, epidemia e pandemia com exemplos que deixam tudo mais fácil. Veja também as implicações da mudança de pandemia para endemia no combate ao SARS-C0V-2. Boa leitura!

Entenda a classificação epidemiológica

Existem diferentes nomes técnicos para classificar o status epidemiológico de uma doença, são eles:

  • Surto;
  • Epidemia;
  • Endemia
  • Pandemia.

O uso desses termos tem relação direta com o alcance e a regularidade de uma enfermidade na população. Entenda melhor a seguir:

O que é epidemia?

Uma epidemia é quando ocorre um aumento no número de casos de uma doença em várias regiões, mas sem uma escala global. Ou seja, o problema se espalha acima do esperado, sem uma delimitação geográfica específica. 

Neste caso, a doença se faz presente em diversos locais ou comunidades, para além daquele em que foram inicialmente identificados. As epidemias podem ser em nível municipal, estadual e nacional.

Para classificar uma doença como epidemia, deve-se avaliar o número de casos em relação à população. Qual o tamanho dessa população? O quão suscetível à doença ela é? Analisam-se também critérios técnicos relacionados à região em que os casos ocorrem, bem como o período em que se iniciaram.

Vale destacar que doenças sazonais não são consideradas epidemias, apesar de registrarem aumentos de casos todos ano em uma determinada época ou estação.

Exemplo: Em dezembro de 2021 ocorreu um aumento repentino e generalizado dos casos de gripe no Brasil. Na época, as autoridades de saúde do estado do Rio de Janeiro trataram a situação como uma epidemia no estado fluminense.

Gráfico do aumento de SRAG no RJ no último trimestre 2022
No último trimestre de 2021, o número de casos graves de gripe saltou no estado do RJ./Fonte: Sivep-Gripe RJ

O que é pandemia?

Uma pandemia é a disseminação mundial de uma doença. Ela pode surgir quando um agente infeccioso se espalha ao redor do mundo e a maior parte das pessoas não são imunes a ele.

Em uma escala de gravidade, a pandemia é o pior dos cenários porque ela se estende a várias regiões do planeta. Mas isso não necessariamente significa que a situação é irreversível ou que o agente da doença tenha aumentado o seu poder de ameaça.

O que muda são as medidas adotadas pelas autoridades no combate ao problema. O protocolo de ação deve ser respeitado não só pelos países afetados, mas também pelos que ainda não registraram casos da doença. É necessária uma abordagem integrada, com governos e sociedade trabalhando juntos na contenção do agente infeccioso. 

Exemplo: Em junho de 2009, a OMS declarou a pandemia de Gripe Suína (H1N1). À época eram registrados casos da doença no mundo inteiro.

Mapa de casos e mortes por Gripe H1N1 em setembro de  2009
Mapa de distribuição de casos de gripe H1N1, publicado em boletim da OMS, na pandemia de 2009./Fonte: OMS

O que é endemia?

A endemia se dá quando uma doença tem recorrência em uma região, mas sem aumentos significativos no número de casos. Ou seja, o problema se manifesta com frequência e segue um padrão relativamente estável que prevalece. Se houver alta incidência e persistência da doença, pode ainda ser chamada de hiperendêmica.

Algumas doenças endêmicas são consideradas sérios problemas de saúde do mundo e preocupam governantes, em especial os que lideram países tropicais de baixa renda. É o caso da Aids e malária, que matam milhões de pessoas todos os anos.

Outra questão importante sobre as doenças endêmicas é que elas podem se tornar epidêmicas se não controladas. Isto depende de vários fatores que vão desde mudanças no agente ou hospedeiro até transformações no ambiente. 

O contrário também pode acontecer, como é o caso do novo coronavírus. Hoje já existe a discussão e alguns países já estão tomando a decisão de considerar a doença endêmica. 

Exemplo: A região norte do Brasil é considerada uma região de risco de malária. Por lá essa é uma doença endêmica.

Série histórica de incidência de malária no Brasil, 2007-2018
Série histórica das regiões com maior incidência de malária no Brasil, entre 2007 e 2018./Fonte: Ministério da Saúde

O que é surto?

Um surto é o aumento repentino e inesperado de casos de uma doença em uma determinada região, comunidade ou estação do ano. O número de casos pode variar de acordo com o agente que causa a doença. Também é avaliado o tamanho e tipo de exposição anterior, quando se trata de uma doença conhecida.

Geralmente os surtos são causados por infecções transmitidas por pessoas, animais ou ambientes, produtos químicos e até materiais radioativos. Existem, ainda, os surtos de causas desconhecidas, como as populares “viroses”, por exemplo. 

Exemplo: Surtos do vírus Ebola são uma preocupação constante em regiões tropicais da África subsariana, desde 1976.

Mapa de distribuição de surtos de ebola do CDC
Distribuição da doença do vírus ebola na África desde 1976./Fonte: CDC

Mudança de pandemia para endemia na COVID-19

Mudar a classificação da COVID-19 de pandemia para endemia, significa que a doença será tratada como permanente. Na prática, ações como  obrigatoriedade do uso de máscaras e das medidas de restrições para evitar aglomerações só voltariam em casos de surtos. Ou seja, em casos de aumentos repentinos na incidência do vírus, como ocorreu com a variante ômicron.

Oficialmente, a alteração do status fará com que a COVID-19 não seja mais tratada como uma Emergência em Saúde Pública de importância Nacional (ESPIN). Assim, normas relacionadas à vigência da ESPIN poderiam ser tornar inválidas. Isso afetaria autorizações de emergência a vacinas e remédios contra a doença, por exemplo. 

As vacinas CoronaVac e Janssen, por exemplo, poderiam ser suspensas. A resolução da  Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que autoriza o uso emergencial de ambas, suspende o uso de ambas, caso o Ministério da Saúde retire o status de emergência.

Outro ponto incerto com esta mudança é como ficaria a vigilância epidemiológica e a testagem em massa.

Por que o Coronavírus é considerado uma pandemia?

No dia 11 de março de 2020, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, fez um pronunciamento informando que a COVID-19 foi caracterizada como uma pandemia. 

A doença foi assim classificada porque, na época, já existiam mais de 118 mil casos espalhados por 114 países – ou seja, houve rápida disseminação geográfica do vírus em curta escala de tempo

Outro motivo que também contribuiu para que a COVID-19 fosse categorizada como pandemia pela OMS foi a falta de ação de com relação à doença. Em muitos países ainda não haviam sido adotadas as medidas necessárias, mesmo com a transmissão em ritmo intenso e aumento repentino de infectados.

Com o status de pandemia, o protocolo mudou, as ações se tornaram mais rigorosas e todos passaram a olhar para as medidas necessárias no combate à doença.

Formas para conter uma pandemia

Existem três meios de se conter uma pandemia. Cada um deles representa um conjunto de ações mais ou menos rígidas e a escolha da forma certa vai depender do estágio em que a pandemia está. São elas:

  • Contenção: essa forma funciona apenas se for adotada logo no começo da pandemia. Nela a população é testada e os infectados são afastados. Essa medida precisa ser extremamente rápida e assertiva, caso contrário o vírus pode continuar se espalhando sem que se tenha conhecimento.
  • Mitigação: essa forma é adotada quando já se sabe que não há mais possibilidade de conter a doença. Nesse estágio, recomenda-se o distanciamento social e algumas medidas leves são aplicadas, como o cancelamento das aulas e eventos e fechamento de comércio no geral.
  • Supressão: essa é a forma mais rigorosa de combate a uma pandemia. Isto porque ela busca interromper totalmente a disseminação do agente transmissor da doença. Quando a supressão é adotada, acontece o lockdown, que passa a ser obrigatório para toda a população.

OMS tem estratégias globais para acabar com epidemias até 2030

Em setembro de 2015, foram acordados nas Nações Unidas os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – aliança de países de todo o mundo que visa acelerar o progresso no combate às doenças infecciosas até 2030.

O evento trouxe resultados positivos alcançados de 2000 e 2015 devido às ações adotadas no início do século XXI: 

  • mais de 17 milhões de pessoas puderam ter tratamento anti-retroviral
  • redução da mortalidade por malária em 60%
  • redução de infecções por vermes da Guiné de mais de 75 mil para 22 casos.

Esses resultados foram possíveis por meio de ações de intervenção em cinco pilares da saúde pública mundial:

  • gestão intensificada de doenças
  • quimioterapia preventiva
  • ecologia e gerenciamento e controle de vetores
  • serviços de saúde pública veterinária
  • fornecimento de água potável e saneamento básico

As ações recomendadas para que as metas de redução sejam alcançadas estão todas no relatório de doenças tropicais negligenciadas. Elas defendem que a integração de atividades e intervenções no sistema de saúde mais amplos podem acelerar bastante o progresso em direção ao combate a essas doenças e também no aperfeiçoamento da cobertura de saúde pública universal. 

Esse texto esclareceu qual a diferença entre pandemia, epidemia, endemia e surto, explicou porque a COVID-19 foi classificada como uma pandemia e trouxe informações sobre a agenda global da OMS no combate às principais epidemias e doenças endêmicas do mundo.

E aí, ficou tudo mais claro? Se tiver dúvidas, deixe nos comentários que a respondemos pra você.


Bem, deu pra ver que independentemente da classificação de uma doença, o importante mesmo é se cuidar para que a situação não piore ainda mais. E, no caso do coronavírus, medidas simples como o uso de máscaras ainda são muitíssimo bem-vindas e recomendadas. 

Se estiver com suspeita de COVID-19 recomendamos, também, a testagem imediata. Saiba onde nos encontrar e faz um Hilab!

Referências Bibliográficas

Telessaúde São Paulo. Qual é a diferença entre surto, epidemia, pandemia e endemia ?. Disponível em: <https://www.telessaude.unifesp.br/index.php/dno/redes-sociais/159-qual-e-a-diferenca-entre-surto-epidemia-pandemia-e-endemia> Acesso em: 24/03/2022.

Organização Mundial da Saúde. Epidemiologia Básica. Disponível em: <https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/43541/9788572888394_por.pdf?sequence=5&isAllowed=y> Acesso em: 24/03/2022.

Organização Mundial da Saúde. Doenças infecciosas endêmicas: os próximos 15 anos. Disponível em: <http://origin.who.int/mediacentre/commentaries/2016/Endemic-infectious-diseases-next-15-years/en/> Acesso em: 24/03/2022.

Organização Mundial da Saúde. Quarto relatório de doenças tropicais negligenciadas. Disponível em: <https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/255011/9789241565448-eng.pdf;jsessionid=E543C79850C9F90490F16DA846FB7C42?sequence=1> Acesso em: 24/03/2022.

Centro de Controle de Doenças e Prevenção. Introdução à Epidemiologia. Disponível em: <https://www.cdc.gov/csels/dsepd/ss1978/lesson1/section11.html> Acesso em: 24/03/2022.

Organização Pan-Americana da Saúde. Módulo de Princípios de Epidemiologia para o Controle de Enfermidades (MOPECE). Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/modulo_principios_epidemiologia_5.pdf> Acesso em: 24/03/2022

Centro de Controle de Doenças e Prevenção. Mapa de Distribuição da Doença do Vírus Ebola: Casos da Doença do Vírus Ebola na África desde 1976. Disponível em: <https://www.cdc.gov/vhf/ebola/history/distribution-map.html> Acesso em: 24/03/2022

Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico – Malária 2020. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/boletins-epidemiologicos/especiais/2020/boletim_especial_malaria_1dez20_final.pdf> Acesso em: 24/03/1990

Agência Nacional de Vigilância Sanitária. RESOLUÇÃO RDC Nº 475, DE 10 DE MARÇO DE 2021. Disponível em: <https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-rdc-n-475-de-10-de-marco-de-2021-307999666> Acesso em: 24/6/1990 

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